Não estamos preparados para lidar com o aleatório e, por isso, não percebemos o quanto o acaso interfere em nossas vidas. Leonard Mlodinow apresenta de forma divertida e curiosa as ferramentas necessárias para identificar os indícios do acaso.
Como resultado, nos ajuda a fazer escolhas mais acertadas e a conviver melhor com fatores que não podemos controlar.
POR QUE O LIVRO TEM ESTE NOME?
" O título O andar do bêbado vem de uma analogia que descreve o movimento aleatório,
como os trajetos seguidos por moléculas ao flutuarem pelo espaço, chocando-se
incessantemente com suas moléculas irmãs. Isso pode servir como uma metáfora para a nossa
vida, nosso caminho da faculdade para a carreira profissional, da vida de solteiro para a
familiar, do primeiro ao último buraco de um campo de golfe. A surpresa é que também
podemos empregar as ferramentas usadas na compreensão do andar do bêbado para
entendermos os acontecimentos da vida diária. O objetivo deste livro é ilustrar o papel do
acaso no mundo que nos cerca e mostrar de que modo podemos reconhecer sua atuação nas
questões humanas. Espero que depois desta viagem pelo mundo da aleatoriedade, você, leitor,
comece a ver a vida por um ângulo diferente, com uma compreensão mais profunda do mundo
cotidiano. "
ANDAR DE BÊBADO.
Em 1814, perto do ápice do sucesso da física newtoniana, Pierre-Simon de Laplace
escreveu:
Se uma inteligência, em determinado instante, pudesse conhecer todas as forças que
governam o mundo natural e as posições de cada ser que o compõem; se, além disso, essa
inteligência fosse suficientemente grande para submeter essas informações a análise, teria
como abranger em uma única fórmula os movimentos dos maiores corpos do universo e os
dos menores átomos. Para essa inteligência, nada seria incerto, e o futuro, tanto quanto o
passado, se faria presente diante de seus olhos.
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Laplace estava expressando a doutrina do determinismo: a ideia de que o estado do mundo
no momento presente determina precisamente a maneira como o futuro se desenrolará.
Na vida cotidiana, o determinismo pressupõe um mundo no qual nossas qualidades pessoais
e as propriedades de qualquer situação ou ambiente levam direta e inequivocamente a
consequências precisas. Trata-se de um mundo ordenado, no qual tudo pode ser antecipado,
computado, previsto. Porém, para que o sonho de Laplace possa se realizar, são necessárias
diversas condições. Em primeiro lugar, as leis da natureza devem ditar um futuro definido, e
devemos conhecer essas leis. Em segundo, devemos ter acesso a dados que descrevam
completamente o sistema de interesse, de modo a impedir a ocorrência de influências
imprevistas. Por fim, precisamos de suficiente inteligência ou capacidade computacional para
conseguir decidir o que nos reserva o futuro, tendo em vista os dados do presente. Neste livro,
examinamos muitos dos conceitos que nos ajudam a compreender os fenômenos aleatórios. Ao
longo do caminho, adquirimos percepções sobre diversas situações específicas que se
apresentam em nossas vidas. Ainda assim, resta-nos o quadro geral, a pergunta sobre o quanto
a aleatoriedade contribui para a situação em que nos encontramos na vida, e com que precisão
somos capazes de prever para onde nos dirigimos.
Como escreveu o
Prêmio Nobel Max Born, “o acaso é um conceito mais fundamental que a causalidade
Olhando pela lente da aleatoriedade.
Os seres humanos geralmente tentam descobrir qual é o padrão e, nesse processo, acabamos
tendo um desempenho pior que o dos ratos. Há pessoas, porém, com certos tipos de sequelas
cerebrais pós-cirúrgicas que impedem os hemisférios direito e esquerdo de se comunicarem
um com o outro – uma condição conhecida como cérebro dividido. Se o experimento for
realizado com esses pacientes de modo que eles só consigam ver a luz ou a carta colorida com
o olho esquerdo e só possam utilizar a mão esquerda para sinalizar suas previsões, apenas o
lado direito do cérebro é testado. Mas se for realizado de modo a envolver apenas o olho
direito e a mão direita, será um experimento para o lado esquerdo do cérebro. Ao realizarem
esses testes, os pesquisadores descobriram que – nos mesmos pacientes – o hemisfério direito
sempre arriscava na cor mais frequente, e o esquerdo sempre tentava adivinhar o padrão. A capacidade de tomar decisões e fazer avaliações sábias diante da incerteza é uma
habilidade rara. Porém, como qualquer habilidade, pode ser aperfeiçoada com a experiência.
Nas páginas que se seguem, examinarei o papel do acaso no mundo que nos cerca, as ideias
desenvolvidas ao longo dos séculos para nos ajudar a entender esse papel e os fatores que
tantas vezes nos levam pelo caminho errado. O filósofo e matemático britânico Bertrand
Russell escreveu:
Todos começamos com o “realismo ingênuo”, isto é, a doutrina de que as coisas são aquilo
que parecem ser. Achamos que a grama é verde, que as pedras são duras e que a neve é fria.
Mas a física nos assegura que o verdejar da grama, a dureza das pedras e a frieza da neve
não são o verdejar da grama, a dureza das pedras e a frieza da neve que conhecemos em
nossa experiência própria, e sim algo muito diferente.
REGRESSÃO A MÉDIA.
Como era possível? A resposta se encontra num fenômeno chamado regressão à média. Isto
é, em qualquer série de eventos aleatórios, há uma grande probabilidade de que um
acontecimento extraordinário seja seguido, em virtude puramente do acaso, por um
acontecimento mais corriqueiro. Funciona assim: cada aprendiz possui uma certa habilidade
pessoal para pilotar jatos de caça. A melhora em seu nível de habilidade envolve diversos
fatores e requer ampla prática; portanto, embora sua habilidade esteja melhorando lentamente
ao longo do treinamento, a variação não será perceptível de uma manobra para a seguinte.
Qualquer desempenho especialmente bom ou ruim será, em sua maior parte, uma questão de
sorte. Assim, se um piloto fizer um pouso excepcionalmente bom, bem acima de seu nível
normal de performance, haverá uma boa chance de que, no dia seguinte, essa performance se
aproxime mais da norma – ou seja, piore. E se o instrutor o tiver elogiado, ficará com a
impressão de que o elogio não teve efeito positivo. Porém, se um piloto fizer um pouso
excepcionalmente ruim – derrapar com o avião no fim da pista, entrando no tonel de sopa da
lanchonete da base –, haverá uma boa chance de que, no dia seguinte, sua performance se
aproxime mais da norma – ou seja, melhore. E se seu instrutor tiver o hábito de gritar “Seu
jegue estabanado!” sempre que algum aluno tiver um desempenho ruim, ficará com a
impressão de que a crítica teve efeito positivo. Dessa maneira surgiria um aparente padrão:
aluno faz boa manobra, elogio tem efeito negativo; aluno faz manobra ruim, instrutor compara
aluno a asinino em altos brados, aluno melhora. A partir de tais experiências, os instrutores
concluíram que seus gritos constituíam uma eficaz ferramenta educacional. Na verdade, não
faziam nenhuma diferença.