O LIVRO.
O livro reportagem traça a ascensão da XP.
Uma das mais bem-sucedidas histórias de empreendedorismo do Brasil começou com uma demissão. Em 2001, Guilherme Benchimol iniciava sua carreira no mercado financeiro carioca quando perdeu o emprego. Envergonhado, decidiu fugir do Rio de Janeiro: pegou o carro e dirigiu quase 20 horas até Porto Alegre, onde, longe dos principais centros financeiros do país, fundou uma modesta empresa de investimentos, a XP, numa salinha de 25 metros quadrados. Hoje, a XP vale dezenas de bilhões de reais — e Guilherme é multibilionário.
Nos primeiros anos, o fundador topava qualquer coisa para evitar a falência. Panfletou nos bairros chiques de Porto Alegre, vendeu o carro para pagar as contas, pediu dinheiro para amigos. Nos anos seguintes, trocou sócios, engordou, emagreceu, quase pifou. Foi tudo, como ele mesmo costuma dizer, “na raça”.
Uma década depois da fundação, a XP deu origem a uma revolução na vida financeira dos brasileiros ao criar sua plataforma aberta de investimentos. Com isso, tirou centenas de milhares de clientes dos bancos e forçou a concorrência a apostar em inovação também — uma prova de que essa história está longe de chegar ao fim.
São 11 capítulos.
CAPÍTULO 1
UM CARA RAÇUDO.
"XP teve sua cultura corporativa, que se mantém a mesma até hoje, forjada nos tempos de penúria. Sonha-se alto, mas gasta-se pouco." ( Como Guilherme Benchimol Criou a Xp ).
ENCONTRANDO SEU CAMINHO.
"Uma das palestras, que aconteceria no auditório da PUC, chamou a atenção de Guilherme. "
"A bolsa, antes aquele faroeste sem lei em que só os de estômago forte sobreviviam, também mudou. A partir dali, ganhava dinheiro quem entendesse os fundamentos das empresas, para onde estava indo seu mercado e qual delas poderia ser privatizada. Ganhar dinheiro deixou de ser só questão de estômago. Virou questão de cérebro também."
"Até que a bolha estourou em 2000, e as premissas sobre as quais negócios como a Investshop haviam sido construídos explodiram junto. Finalmente, analistas e investidores se davam conta de que todos aqueles planos e projetos e números inflados não iam necessariamente ser convertidos em lucro. E que companhias que não lucram não deveriam valer muito."
O EMPURRÃO DO "DESTINO" ?
" Quase um ano do estouro da bolha já tinha se passado, e a Investshop segurando as pontas — até que, sem resultados, não conseguiu mais manter sua estrutura. Guilherme ficou preocupado com seu futuro, mas ouvia dos amigos que era um funcionário dedicado, que não havia dúvida de que seria preservado. “Gente boa não é mandada embora”, diziam os pais e os amigos. No começo de maio de 2001, Guilherme foi demitido. A demissão foi um choque, agravado justamente pelo discurso das semanas anteriores. Se ele havia sido mandado embora é porque não era bom o suficiente. Saiu correndo para casa e desabou no choro. A mãe tentava consolá-lo, dizia que ia aparecer coisa melhor e que ele tinha feito o possível. ". Decidiu ir para Porto Alegre.
CAPÍTULO 2
NASCE A XP.
"participação na sociedade. Pagariam os setecentos reais que Tiago recebia e mais uma participação de 10% na XP. — É a participação em um sonho — disse Guilherme, sabendo que estava oferecendo 10% de nada. — Mas é um sonho que vai valer muito. Ela topou. A sociedade passou a ser composta por Guilherme, com 54%, Marcelo, com 36%, e Ana Clara, com seus 10%. Afastado o risco de perder a administradora do back office, a XP seguiu sem rumo. Os sócios tentaram, sem sucesso, encontrar um modelo de negócio que conseguisse tornar o fluxo de receitas minimamente constante e previsível." ( Na Raça: Como Guilherme Benchimol Criou a Xp e Iniciou a Maior Revolução Do Mercado Financeiro Brasileiro" by Maria Luíza Filgueiras).
DIFÍCIL APOSTAR NA BOLSA.
"caminhava para 25% ao ano e, com um juro desses, ficava difícil convencer alguém a se arriscar na bolsa — investimentos em títulos de dívida do governo federal, vistos como muito mais seguros, eram simplesmente imbatíveis. O volume médio de negociação diária na Bovespa minguava, tirando o ganha-pão de empresas como a XP. O quadro era de absoluta penúria."
"Em quatro meses, a XP conseguiu alugar uma salinha anexa e crescer para quarenta metros quadrados. O novo espaço seria dividido entre a tão desejada sala de clientes e uma sala de reuniões. Parecia chegada a hora de levar mais gente para a empresa. Guilherme conhecia um gaúcho, Rossano Oltramari, que tocava a sala de ações de uma agência do banco Santander,"
"Guilherme estava eufórico com a nova fase da XP. A empresa parecia ter encontrado um modelo de crescimento sustentável com a estratégia educacional. Os sócios compraram um CD que fornecia cadastros para envio de mala direta e, com aquela lista, disparavam mensagens" (from "Na Raça: Como Guilherme Benchimol Criou a Xp e Iniciou a Maior Revolução Do Mercado Financeiro Brasileiro").
"de e-mails sobre os cursos para centenas de caixas postais, como spam. A empresa percebeu que o modelo eliminava a necessidade de ter uma rede prévia de contatos e um relacionamento com o grupo financeiro de uma ou outra cidade. A XP replicava o modelo de permuta ou anúncio em jornais e rádios locais, alugava um salão de hotel ou de clube, fazia um curso, abria uma filial. Agora que haviam encontrado uma fórmula, iriam repeti-la à exaustão."
CAPÍTULO 3
A CONQUISTA DA OCEANIA.No jogo de tabuleiro WAR, Guilherme gostava de conquistar a Oceania e depois tentar conquistar o mundo.
"Pouquíssimos alunos abriam de fato uma conta, fosse na XP, fosse nos escritórios de agentes autônomos associados. Do jeito que a coisa ia, eles estavam se transformando numa empresa de educação, e não era essa a ideia. Os cursos eram importantes, mas eles estavam ali para conseguir clientes, não eram um fim em si mesmos. Era preciso encontrar uma forma de acelerar essa “conversão”. Como fazer isso, ninguém sabia. Uma das razões do sucesso dos cursos da XP era a sua simplicidade. Aquelas palestras criavam nos alunos a sensação de que conheciam melhor o funcionamento do mercado financeiro. Todavia não lhes davam a confiança necessária para, de fato, mergulhar na bolsa, operar e, assim, gerar receita para a XP."
"Além disso, os alunos faziam um curso só e logo deixavam de ser clientes. Se eles acreditassem que poderiam ganhar dinheiro de maneira constante com o conteúdo das aulas, tudo seria diferente. As primeiras dadas pela XP eram teóricas demais; as outras, simples demais. Faltava ensinar como ganhar dinheiro na prática. Guilherme, Marcelo e Rossano quebraram a cabeça para encontrar um novo formato de curso. Até que Guilherme apareceu com uma “fórmula mágica” para ensinar os alunos a investir: — Vamos ensinar o cara a usar média móvel para saber quando comprar ou vender uma ação. A média móvel é calculada com base no histórico de preços de uma ação. É um dos diversos indicadores usados pelos analistas técnicos, que tentam prever o preço futuro de uma ação"
"Nascia ali também um serviço para o cliente: o agente autônomo ligava para avisar que uma ação tinha dado ponto de compra ou de venda. “Quer operar hoje?”, perguntava, em seguida. O cliente, que já tinha aprendido o método no curso, decidia se dava ou não a ordem a cada ligação do seu agente autônomo. No módulo sobre médias móveis, a aula sempre incluía alguma ação que tinha dado ponto de compra na sexta-feira anterior. — Viram essa Usiminas aqui? Pois é, se vocês estivessem operando com a XP, um agente nosso ia ter ligado e falado “Olha, deu ponto de compra”.
O BRASIL COMEÇA A MELHORAR.
"Sob o comando de Antonio Palocci, o Ministério da Fazenda fez tudo ao contrário do que rezava a cartilha petista. Manter o orçamento sob controle continuava sendo prioridade. Reformas microeconômicas importantes destravaram a economia, facilitando a expansão do crédito. Para ajudar um pouco mais, começava ali um período de valorização mundial das commodities, causado pelo crescimento econômico de uma nova potência em ascensão, a China. Minério de ferro, soja, petróleo — a China consumia tudo aquilo com voracidade, favorecendo as exportações brasileiras. Diante disso, o real valorizou-se e a inflação amansou. O investidor estrangeiro, que representava 25% do volume negociado na bolsa brasileira, voltava." ( "Na Raça: Como Guilherme Benchimol Criou a Xp e Iniciou a Maior Revolução Do Mercado Financeiro Brasileiro" by Maria Luíza Filgueiras).
"No mercado financeiro, timing é tudo — e a XP, sem querer, acertara o timing na mosca. Com o ritmo da operação se acelerando, e investidores querendo entrar na onda da bolsa em alta, aumentando a quantidade de negociações, a mesa de ações da XP ganhava volume."
"Num mercado financeiro minúsculo e parado como o de Porto Alegre, qualquer novidade chamava atenção. E, naquela fase da bolsa, a XP virou uma espécie de sensação local. Estudantes de economia, administração e engenharia na PUC gaúcha pensavam na XP como a melhor alternativa para começar uma carreira no mercado financeiro. Ao mesmo tempo, a empresa já roubava clientes de corretoras tradicionais, aqueles com um pouco mais de patrimônio para operar."
A BUSCA DE NOVO SÓCIO. *JULIO.
"As filiais brasileiras de empresas internacionais tinham pouca autonomia para tocar projetos e dar promoções aos funcionários. Ele queria algo um pouco mais empolgante do que a vida de escritório e foi contaminado pela vibração dos agentes autônomos do Sul. Aquilo lá era muito mais parecido com as histórias que o pai contava do Garantia do que a rotina monótona de uma multinacional. Decidiu pedir as contas na Ceras Johnson e partir para outra."
APRENDENDO.
"Esse, aliás, seria um traço característico da cultura da empresa desde os primórdios. Conforme acontecia em bancos como o Garantia e o Pactual, ninguém precisava ser especialista para tocar uma área. O mais importante era ter a cultura de trabalho e a vontade de aprender. Valia a regra da lagartixa, um dos pilares da gestão de recursos humanos do Pactual de Luiz Cezar Fernandes — “joga o cara na parede. Se ele grudar, deu certo.
"Julio, você tem que descobrir as posições da Dynamo. Vai lá, descobre o que eles têm e a gente copia. Os caras são fera, é sem erro — disse Guilherme. — Não, Guilherme, eu preciso montar uma mesa de análise. Tenho que contratar analistas. — Não viaja, fazer análise é caro, a gente quebra se contratar analista. Vai na Dynamo, você é cotista, seu pai é um supercliente, vamos por esse caminho. Depois você monta sua equipe, quando tiver algum volume. Assim nasceu a XP Gestão de Recursos. Mês sim, mês não, Julio ia até o escritório da Dynamo, no Rio, com o argumento de que precisava acompanhar suas aplicações."
E QUANDO A ESTRATEGIA FALHOU, A OCEANIA JÁ ESTAVA CONQUISTADA.
"A verdade é que os problemas da XP Gestão pouco importavam naquele momento. O núcleo do modelo da XP — os cursos, a operação de bolsa e o crescente exército de agentes autônomos — se provava um sucesso. Em 2005, o Brasil entrava no terceiro ano seguido de valorização na bolsa, e a onda de aberturas de capital se aproximava do auge. Embalada, a XP já tinha vinte filiais na região Sul e seus cursos eram ministrados em cerca de trezentas cidades. A Oceania estava ocupada — era hora de sonhar com a conquista do mundo."
CAPÍTULO 4
" ESSE TROÇO VALE DINHEIRO PRA CARAMBA !".
"XP distribuía aos sócios, no total, cerca de 30 mil reais por mês, uma fortuna impensável dois anos antes. Mas aquele cheiro de sucesso aumentava em Guilherme sua já naturalmente elevada ansiedade. O Brasil vivia um bull market — expressão consagrada para designar um mercado acionário em ascensão — como há muito não se via. A XP precisava aproveitar aquela onda antes que acabasse: do jeito que estava, o teto da empresa era baixo demais."
VAMOS MUDAR DE ENDEREÇO...
Até hoje, os sócios da XP consideram a mudança para a Carlos Gomes uma das decisões mais arriscadas da história da empresa. Se o crescimento não viesse, seria um fracasso completo, uma ameaça à sobrevivência do negócio. Mais uma vez, porém, o acaso estava jogando do lado deles. Um vizinho no prédio conheceu a empresa e quis apresentá-la ao irmão, que morava no Rio. O irmão não era um sujeito qualquer, mas o banqueiro Eduardo Plass, que havia acabado de comprar uma participação na corretora Ágora, uma das maiores do país. Plass pediu para conhecê-los de perto. E a conversa que eles começariam ali mudaria a XP para sempre. Aos 45 anos, o engenheiro gaúcho Eduardo Plass era um dos financistas mais bem-sucedidos do Rio de Janeiro, e sua turbulenta carreira era objeto de fascinação e polêmica no mercado. Sua trajetória no mundo das finanças começara em 1987, quando trabalhava na construtora Camargo Corrêa e conheceu Luiz Cezar Fernandes, o fundador do Pactual. Engataram uma conversa e Fernandes o convidou para trabalhar no back office do banco. Com seu estilo sisudo, trabalhador e sofisticado, Plass transformou a área de apoio do Pactual, antes uma bagunça, em algo que funcionava. Sua ascensão foi sempre patrocinada por Fernandes, que tinha no engenheiro seu principal protegido."
"1994, quando Guilherme assistiu à palestra de Fernandes na PUC que o fez decidir pelo curso de economia, Plass já era um dos principais sócios do Pactual, e o banco estava prestes a passar por um período de crise. Fernandes fez uma atrapalhada série de investimentos em empresas de setores tão variados quanto a indústria têxtil e a produção de suco de laranja. Foi perdendo dinheiro em todos, até que os sócios do Pactual — entre eles, Plass e André Esteves — resolveram chutá-lo para fora do banco. A saída de Fernandes do banco fundado por ele é um dos episódios mais marcantes da história do mercado financeiro carioca. Como num romance de William Faulkner, as versões para o que aconteceu no Pactual são diversas e contraditórias, dependendo do ponto de vista de cada personagem. "
A PROPOSTA DE PLASS...
"formato de negócio foi sendo revelado aos poucos. Plass queria comprar a XP e juntá-la à área de varejo da Ágora, que passaria a ser tocada pela turma da XP. Os sócios teriam 12% da nova Ágora e uma opção de venda dessa participação (ou put, no léxico financeiro) de 30 milhões de reais. — Trinta milhões? Caraca, Guilherme! — repetia Julio, cujo sonho mais ambicioso àquela altura era se mudar para Florianópolis. — Outro dia você estava quebrado! Em 2006, a XP já projetava um Ebitda (lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização, medida usada como referência para a geração de caixa de uma companhia) de cerca de 3 milhões de reais para o ano, e Plass"
"Ouvir aquele número foi um choque que mudaria a cabeça de Guilherme para sempre. Até ali, ele tocava a empresa como se fosse um executivo. Queria fazer a XP crescer, ganhar dinheiro, ter uma vida legal. Mas até que Plass surgisse na sua vida, jamais tinha pensado que a XP poderia valer dinheiro, muito menos uma cifra como aquela. Afinal, eles nem sequer tinham uma corretora, não passavam de uma rede de agentes autônomos que davam aula. “Esse cara não é bobo”, pensava. “Esse troço vale dinheiro pra caramba, e quanto mais a gente crescer mais vai valer.”
"Estou com medo, Marcelo, o cara é um avião, vai engolir a gente”, dizia Guilherme. São os detalhes que matam as fusões, e na discussão sobre a fusão da Ágora e da XP não foi diferente. À medida que os sócios da XP foram entendendo como seria a vida pós-venda, caía a ficha de que se tornariam empregados de Plass, perdendo a autonomia e, com isso, a motivação. Além disso, mais para o fim das conversas, Plass disse que sua ideia era acabar com a rede de agentes autônomos da XP. O plano, disse, era vender a Ágora para um banco, e os bancos".
PROPOSTA DE PLASS NÃO VINGOU E A SOLUÇÃO VIRAR CORRETORA.
"Galera, vamos precisar virar corretora. Era uma guinada completa no modelo de negócios da XP. Ter uma corretora significava abandonar a leveza que a vida de agente autônomo garantia. As corretoras precisavam ter capital, investir em tecnologia, correr muito mais risco. Corretoras quebravam a todo momento. Fora que a XP não tinha dinheiro para sonhar muito alto. Mas a bolsa continuava bombando, e a corretagem era o melhor negócio do mundo naqueles tempos eufóricos. O Ibovespa estava em seu quarto ano seguido de alta, a taxa de juros caíra de 26,5% ao ano para 13,75% e o número de pessoas usando o home broker dobrava a cada ano."
"A ideia de virar corretora também foi impulsionada por uma crise com a Investshop por conta da inexperiência dos agentes autônomos. Quando o varejista on-line Submarino lançou sua oferta de ações na Bovespa, um deles distribuiu um material mostrando o potencial da operação para os clientes. Parecia algo normal, mas a CVM proibia qualquer tipo de propaganda de ofertas de ações, e o material de divulgação desse tipo de operação precisa ser aprovado pela própria autarquia. O fato é que a Investshop foi excluída do IPO do Submarino em função da barbeiragem de um agente autônomo da XP em Porto Alegre."
CAPÍTULO 5.
A MENOR CORRETORA DO BRASIL.AMERICAINVEST.
"Por sua regulação arcaica, o mercado de corretoras era praticamente inacessível para novos entrantes. Não bastava querer abrir uma corretora, era preciso comprar a carta patente de quem já tivesse uma. Tratava-se de um clube fechado com uma barreira de entrada imensa. E a Americainvest, daquele jeitão meio bizarro, representava para a XP o título de sócio do clube. O pulo do gato para tornar a operação um pouco mais atraente era a conversão dos títulos patrimoniais detidos por donos de corretora em ações da Bovespa, o que aconteceria na abertura de capital da bolsa. Com aquela operação, Klebinho levantaria um bom dinheiro "
"Se para a XP a compra da Americainvest era um passo importante, para Guilherme representava muito mais que isso. A assinatura daquele contrato tinha gosto de vingança. O trauma da série de fracassos em sua carreira no Rio de Janeiro ainda era vivíssimo. O sucesso da XP na longínqua Porto Alegre era ignorado pelos amigos, pela família, pelo mercado no Rio e em São Paulo."
"Em 2007, na esteira da euforia da bolsa, a XP “tradicional” vivia numa bolha em Porto Alegre. Os cem lugares da nova sede foram preenchidos em seis meses, e a empresa girava mais dinheiro que todas as corretoras tradicionais da região Sul. Era uma vitória do modelo de agentes autônomos, ainda visto com enorme resistência por todos os competidores estabelecidos. Com um lucro superando os 10 milhões de reais por ano, os sócios da XP já começavam a ter algum dinheiro para viver melhor. Mas, agora que as coisas davam certo, era hora de mudar tudo."
"Foi assim, juntando às pressas três operações diferentes — criando aquilo que o próprio Guilherme chamava de Frankenstein —, que nasceu, em julho de 2007, a corretora XP. Os sócios estouraram uma garrafa de champanhe no início da operação simbólica, mas o nome só seria efetivamente alterado quatro meses depois."
"XP começava a entrar num mundo novo. • • • AGORA QUE ERA dono de uma corretora, Guilherme não conseguia tirar da cabeça uma conversa que havia tido com Eduardo Plass enquanto negociavam a compra da XP pela Ágora um ano antes. — Guilherme, corretora não pode ter agente autônomo — dissera Plass. Aquele era quase um lugar-comum no mercado brasileiro na época. A base do raciocínio é que as corretoras usavam os agentes autônomos como força de trabalho disfarçada,"
PRISÃO DISFARÇADA.
"A gente tem que criar uma prisão sem muros pra esses caras. Senão eles vão embora e a gente fica largado — repetia Guilherme. — Quero todo mundo com a nossa marca. Não era uma tarefa simples. Além do peso trabalhista que as contratações gerariam para a XP, virar funcionário não era uma decisão óbvia para os agentes autônomos. Comissionados, eles ganhavam de 15 mil a 20 mil reais por mês no ritmo que a empresa vinha crescendo. Era impossível, pelos encargos sobre o salário, que a XP bancasse o mesmo valor. Benchimol e Amaral definiram que todos teriam um salário-padrão de 5 mil reais (sobre o qual incidiriam os custos trabalhistas), e eles criariam um sistema"
DIFÍCIL...
"DECISÕES DIFÍCEIS como a contratação dos agentes autônomos eram tomadas correndo, uma vez que não sobrava muito tempo para pensar nelas — em 2007, a valorização da bolsa chegaria a 43% e a onda de aberturas de capital atingiria seu ponto mais alto. Naquele ano, o volume de IPOs foi de 55 bilhões de reais, número 258% maior que o de 2006 (que já tinha sido elevado). A série de IPOs de 2007 acelerava a transformação na bolsa iniciada em 2004, quando a Natura abriu seu capital. Empresas dos mais diversos setores fizeram IPOs em 2007 — foram 23 ofertas apenas de companhias do setor imobiliário. O valor das ações disparava no dia em que começavam a ser negociadas. O valor de mercado da Bovespa subiu nada menos que 52% em sua estreia, numa espécie de símbolo daquela que parecia ser uma nova era no mercado de capitais brasileiro. Banqueiros de investimento que lideravam aquela série de transações embolsavam milhões de dólares em bônus. Naquele ano, como se dizia na época, até tijolo voava."
Essa sensação se tornou mais vívida em março de 2008, quando o banco Bradesco comprou a Ágora por 880 milhões de reais. Ao ouvirem a notícia, os sócios da XP levaram um susto. Plass tinha conseguido concretizar seu desejo e não precisara deles para chegar lá. Os 12% que a XP teria na Ágora se tivessem fechado negócio em 2006 valeriam, ali, cerca de 100 milhões de reais, mais que o triplo do valor da put de 30 milhões que Plass tinha oferecido. Era dinheiro suficiente para deixar todos os sócios ricos. Mas, passado o baque e a ponta de inveja, mais uma vez eles chegaram a uma conclusão lógica — se a Ágora valia tanto para o Bradesco, a XP poderia valer também. Mas para quem?"
"Nada parecia capaz de segurar aquele movimento de alta nas ações. Em 30 de abril, a agência de classificação de risco Standard & Poor’s deu ao Brasil o “grau de investimento”.
Na prática, isso significa um selo de qualidade para investidores internacionais, indicando a capacidade que um país tem de honrar compromissos e afastando o risco de um calote na dívida pública. Aquele era um sonho visto como distante por gerações de ministros da Fazenda e mostrava que o Brasil começava a ser visto como um país sério. No pregão do dia, o volume diário de negociação da bolsa, que era de 6 bilhões de reais em média, saltou para 10 bilhões de reais. Em 29 de maio, outra agência, a Fitch, também elevou o Brasil a “grau de investimento”, fazendo com que a bolsa brasileira quebrasse seu recorde histórico e atingisse os 73.920 pontos."
"Eike Batista fez o IPO de sua petroleira, OGX, levantando 6,7 bilhões de reais naquele que era o maior IPO da história da bolsa brasileira — a OGX ainda não produzia petróleo, mas ninguém ligava para esse tipo de detalhe. — Temos um selo! Todo mundo ligando pra cliente pra explicar isso, pessoal! — gritava Rossano à mesa de operações. O inédito bull market fez da XP um alvo de cobiça para Itaú e Unibanco, sobretudo depois que o arquirrival Bradesco comprou a Ágora. Se o número de investidores da bolsa continuasse crescendo naquele ritmo, os bancos precisariam se acoplar a empresas como a XP para aproveitar. Em conversas informais, os representantes dos bancos falavam em avaliar a XP em até 240 milhões de reais, uma valorização de até oito vezes em apenas um ano e meio. De repente, a hipótese de colocarem centenas de milhões parecia plausível "
CAPÍTULO 6.
MODO DE SOBREVIVÊNCIA LUNAR.
"Enquanto a bolsa brasileira alcançava patamares nunca vistos na história, o mercado americano emitia sinais preocupantes. Em março de 2008, o venerável banco de investimento Bear Stearns foi resgatado pelo governo e vendido quase de graça, para o concorrente J.P. Morgan. Na origem dos problemas do Bear Stearns estava uma enorme pilha de empréstimos concedidos durante o boom do mercado imobiliário americano. Quando os devedores começaram a dar calote naqueles financiamentos, investidores passaram a duvidar da saúde financeira do banco. Na prática, o governo salvou a instituição financeira e obrigou a venda ao J.P. Morgan. Até ali, supunha-se que esse tipo de problema estava localizado no Bear Stearns, que fora um financiador particularmente agressivo da bolha imobiliária americana. Os investidores não deram muita importância, e o mercado brasileiro continuou subindo. Mas, à medida que as semanas passavam, ficava claro que o Bear Stearns tinha sido apenas o trailer de um filme de terror que começaria para valer seis meses depois.
"Numa frase que se tornaria famosa, o lendário investidor americano John Templeton disse que um bull market “nasce no pessimismo, cresce em meio ao ceticismo, amadurece no otimismo e morre na euforia”. A ascensão da bolsa brasileira seguiu esse roteiro. Começara durante o pânico da eleição de Lula, crescera durante o espanto com as medidas econômicas racionais, ganhara fôlego com a sensação de que o Brasil era a “bola da vez” e adquirira, em 2007 e 2008, contornos de exuberância irracional. A série de IPOs de empresas que não tinham a menor condição de sobreviver era o maior sinal de que as coisas haviam passado do ponto."
"Quando a crise veio, a XP e outras corretoras viveram um momento paradoxal. Embora parecesse que o mundo ia acabar, elas contabilizaram semanas lucrativas como nunca. Isso porque o volume de negociação de ações em momentos de alta volatilidade como aquele sobe muito, o que aumenta os ganhos com corretagem. O mecanismo de stop loss, em que investidores definem o preço pelo qual vão vender seus papéis para interromper prejuízos, é acionado como nunca numa crise."
NESTE TEMPO DE CORONAVÍRUS.QUE FOI UMA QUEDA DE 42% SOMENTE NO MÊS DE MARÇO 2020.
"A Bovespa fechou 2008 com queda de 41,22%. Foi seu pior desempenho desde 1972. No início de dezembro, Guilherme convocou uma reunião no escritório do Rio por teleconferência com os principais sócios de Porto Alegre. A partir dali, ele avisou, a XP entraria no que Glitz batizou de “modo de sobrevivência lunar”. Era preciso demitir e cortar custos, e precisava ser rápido. Todos os sócios teriam de mostrar, naquele dia mesmo, como suas áreas contribuiriam para o aperto. Em uma tarde, a XP demitiu trinta pessoas, especialmente na área comercial, inclusive gente que havia sido contratada um mês antes."
"Temos que fazer contenção de custos e tem que começar com a gente. Vamos ter que abdicar do salário, senão o negócio não vai parar de pé — disse Benchimol. Os sócios já estavam acostumados a não ter reembolso dos gastos corporativos. Passagem de avião para visitar cliente, boleto de táxi, conta de telefone celular — tudo que chegava às mãos de Guilherme nos últimos anos como pedido de ressarcimento dos principais sócios por gastos com a companhia viravam bolinha de papel e iam parar na cesta de lixo. Mas agora é que a coisa ia apertar mesmo. O grupo dos principais sócios receberia um valor fixo de até 3 mil reais, mas nenhuma remuneração variável, que era o grosso do rendimento"
"Mas, com todas as estratégias que tinham dado errado e outras que fracassariam no futuro, a regra de Guilherme era sempre a mesma: “stop curto”, como se diz no jargão de mercado, para mudar uma estratégia perdedora. Ou seja, parar de perder o mais rápido possível. Seria um traço marcante de sua gestão ao longo dos anos. À exceção de movimentos bruscos como a mudança de escritório em Porto Alegre e a compra da corretora, a história da XP seria marcada por pequenos projetos — se dessem certo, o investimento cresceria; se dessem errado, rapidamente seriam engavetados. Depois de enxugar gastos, a orientação de Guilherme havia sido clara: encontrar outras fontes de receita. Se fossem depender apenas da corretagem, estariam perdidos. Mas como fazer isso quando os brasileiros estavam ficando desempregados?"
"primeiro trimestre de 2009 passava arrastado. O Brasil tinha entrado em recessão, a primeira retração trimestral desde 2003. Grandes companhias demitiam em massa - fabricante de aeronaves Embraer, por exemplo, cortou mais de 4 mil vagas. Líderes nacionais como a indústria de celulose Aracruz e a gigante de alimentos Sadia quase quebraram por sua exposição a derivativos atrelados à variação do dólar."
"a bolsa, que tinha despencado em 2008, voltou com tudo em 2009 para ter, em dólares, seu melhor ano em quase duas décadas. Mesmo com a primeira recessão anual em 17 anos. A XP não teve nem tempo de lamber as feridas causadas pela crise, pelas demissões e pelos cortes generalizados na remuneração. É um fato que se repete na história da bolsa, e em 2009 não seria diferente: quem aproveita os momentos de valorização repentina nas ações são os grandes investidores. Os pequenos estão assustados demais com a queda recente de suas ações e só retornam ao jogo quando já leram no jornal algumas vezes que a bolsa voltou a ser um bom negócio. Felizmente para a XP, ainda em 2007 fora criada uma área dedicada à busca por grandes investidores, chamados de “institucionais”. Aquele era um passo necessário para crescer e diversificar as receitas de uma"
COMUNICAÇÃO.
"A empresa criou a XP TV, uma rede interna em que todos os dias da semana, pela manhã, Rossano falava com os agentes de todos os escritórios sobre as perspectivas econômicas e as principais estratégias para ações, dando o roteiro das conversas que eles deveriam ter com os clientes ao longo do dia." (from "Na Raça: Como Guilherme Benchimol Criou a Xp e Iniciou a Maior Revolução Do Mercado Financeiro Brasileiro"
MELHORIA.
"Aqueles foram tropeços desagradáveis num ano muito melhor do que qualquer um podia esperar. O ritmo de ofertas de ações tinha voltado a aumentar. O IPO do Santander Brasil, em outubro, foi a maior oferta inicial de ações do mundo naquele ano, atingindo 13,2 bilhões de reais. A Bovespa fechou 2009 com o maior retorno em dólar em dezoito anos, de 145%, e um rendimento, em reais, de 82,66%. Em novembro, a revista inglesa The Economist colocou o Brasil em sua capa com a chamada “
(Brasil decola). A imagem do Cristo Redentor voando como um foguete simbolizava o ano de 2009, quando o tsunami vindo dos Estados Unidos se transformou em marolinha no Brasil. Guilherme, traumatizado com a experiência de quase morte corporativa de 2008, desconfiava. Ele sabia que o inegável sucesso da XP até ali tinha sido uma consequência direta dos anos seguidos de valorização nas ações brasileiras. Era fácil, para os agentes autônomos da corretora, vender algo que subia sem parar. Ganhava-se 0,5% de cada ordem de compra ou venda executada, e pronto: o cliente ficava feliz com a valorização da ação que tinha comprado e depois voltava para comprar mais. E quando aquilo acabasse? A crise de 2008 lembrara a todos que a bolsa alterna ciclos de alta e baixa. Apesar do incrível rali de 2009,"
CAPÍTULO 7.
QUERO SER SCHWAB.
"a cara da XP — disse Englert. Ou melhor, a cara que a XP deveria ter. Os sócios se dividiam na feira e passavam o dia entrevistando assessores e gestores, como se de fato fossem fazer negócio com eles. Como o assessor ganha dinheiro? Qual é o modelo de remuneração? Quem faz mais transações ganha mais ou ganha menos? O cliente faz quantas aplicações por mês? Tem que fazer propaganda? O assessor tem que usar a mesma marca da corretora? No café da manhã eles definiam uma lista de perguntas e no jantar, tinham que entregar as respostas. Começou ali o projeto mais importante da história da XP: a partir de 2010, eles copiariam a Schwab em tudo.".
"Como tudo na vida, a ideia era importante, mas a capacidade de executá-la, ainda mais. A XP tinha algo que os outros não tinham. Seu exército de agentes autônomos, que até ali funcionavam"
FALTA DE EXPERIÊNCIA EM NEGOCIAR.
"XP, que ficariam impedidos de abrir concorrentes. Bocayuva foi categórico ao dizer que, da forma como estava a proposta, eles simplesmente não assinariam. O tom subiu, e a discussão se acirrou, enquanto o resto da sala assistia em silêncio, sem entender direito como o clima ficara carregado de uma hora para outra. Enfurecido, Chu bateu na mesa: — É dealbreaker! No jargão dos negócios, dealbreaker é o tema que faz uma negociação morrer. Chu juntou sua papelada, colocou o celular no bolso e saiu da sala. Julio e Amaral se entreolharam. — Cara, o que significa isso? Você matou nosso deal? — perguntou Julio a seu advogado. Chu e Patrick, os sócios da Actis, eram macacos velhos no mundo das fusões e aquisições. Já tinham mais de duas dezenas de negociações."
MEIO BILHÃO.
"credibilidade, algo que Guilherme buscava desde os primeiros anos. E, finalmente, garantia o tal fôlego financeiro que nunca haviam tido. Em 2010, a XP já era a terceira maior corretora do país, um crescimento espantoso para quem estava na 53a posição em 2007. A empresa tinha 70 mil clientes cadastrados, sendo metade deles de fato ativos, e trezentos agentes autônomos de investimento, com uma receita anual de 185 milhões de reais. Contudo, mesmo com esse sucesso todo, continuavam vivendo no aperto. A partir da entrada da Actis, a empresa poderia sair do modo de sobrevivência lunar iniciado na crise de 2008. Os sócios voltariam a receber salários e dividendos. Eles eram, afinal, donos de uma empresa de meio bilhão de reais. Pela primeira vez na história da XP, eles se sentiram ricos — no papel, já que não tinham colocado" (from "Na Raça: Como Guilherme Benchimol Criou a Xp e Iniciou a Maior Revolução Do Mercado Financeiro Brasileiro" by Maria Luíza Filgueiras)
CAPÍTULO 8.
UMA EMPRESA BILIONÁRIA.


Não sabia da história da XP interresante
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